O conde de Ficalho viveu intensamente e repousadamente;investigou com paixão e com método; a sua obra é valiosa. Não se lê porém hoje «Uma Eleição Perdida» -impressa em 1888e só agora reeditada_como facilmente se lê Eça de Queirós-seu contemporâneo, seu companheiro e seu amigo. Poucostomam «A Flora de “Os Lusíadas”. ‹Garcia da Horta e o Seu tempo›, livro notável, só é folheado por mãos cultas, com ogosto subtil da jornada ou da ciência. Pouco lido, citado, antologiado, o conde de Ficalho é, noentanto, um narrador de grande mérito, que influenciou contistas posteriores; uma figura um tanto delida, mas cujo nomeainda perdura. No retrato dos Vencidos da Vida, em primeiroplano, sentado, a imagem do conde é austera, poderosa. Está,ali, Alguém. Grandeza tinha a sua linhagem, muito antes de Maria I, por Decreto de 5 de Abril de 1769, ter criado a sua dama de honor, D. Isabel Josefa de Breyner, condessa de Ficalho. Esta senhora era viúva de Francisco de Mello--Breyner, senhor de Vila Verde de Ficalho, chefe da estirpe dos Mellos de Serpa. Aqui conservava a família extensas propiedades, que eles próprios cuidavam, ou a que voltavam,quando o permitiam armistícios em campanhas, licenças emlabores da corte, regresso de prisões ou exílios- já que, tendo o serviço por obrigação, sempre os Ficalhos ajudaram os seusreis e sempre pelejaram pelos seus ideais. Os Mellos, alcaides mores de Serpa, descendíam de MemSoares de Mello, companheiro de armas de D. Afonso III na conquista do Algarve. Vasco Martim de Mello, almoxarife ealcaide, distingue-se no reinado de D. Fernando, época de pendência e de intriga. Sob os primeiros Avis, tão vasta e farta era a casa rural dos Mellos de Serpa, que Fernão Lopes, naCrónica de D. João I , estira a sua grandeza por todo umcapítulo;_‹depois, em tempo de paz e em tempo de guerra,sempre os séculos foram generosos com a linhagem. O grande contista de «A Caçada do Malhadeiro» era neto desse valente conde de Ficalho que, nas Guerras Peninsulares, em Arapiles, episódio da batalha decisiva de Salamanca, comandara o Regimento de Infantaria 18 e tombara sob as descargas dos franceses. Sua mulher, filha dos marqueses de Lavradio, foi duquesa de Ficalho, recompensa do muito que lidoue do muito que sofreu pela causa de D. Maria II Era ainda condessa quando rompe a guerra civil. Eugénia Ficalho chama os filhos ao oratório. Sem um tremor, pede-lhes que se alistem no exército de D. Pedro IV e, com uma frieza penosa: «Só Deus dá a virtude e o valor é uma virtude. Peçam a Deus que lhes dê valor. Abraçou, sorrindo, os filhos; ouviu, no pátio, botas baterem energicamente em lajes; uma carruagem' rodou. Ouve-seum estrondo, em cima, no salão; os lacaios acodem. A condessa,desmaiada, jazia como morta no soalho.O governo de D. Miguel encerroua no mosteiro de Carnide, onde as monjas, legitimistas, a tratavam com umacrueza metódica e uma polidez ríspida. O padre que oficiava no convento, chegava em murmúrios subtis ou, colérico, aos berros: «A cólera de Deus vai punindo os malhados, mas Da qual se fez_ uma versão cinematográfica. enquanto viverem os malvados dos Ficalhos não ficará satisfeita!›. Vexada e aliviada, a condessa ficava sabendo que seusfilhos: - viviam. e um deles, o mais velho, que, em 1833, entrando o exército do duque da Terceira vitorioso em Lisboa, se apresenta no convento de Carnide, a libertar sua mãe. Nomeada camareira mor da rainha D. Maria II foi criada primeira marquesa, depois duquesa de Ficalho. E não se passam estes lances de bravura e de nobreza por gosto de grandes fastos e de grandes nomes. Na escolha do tema literário pesa a existência, e quantas vezes a ascendência do autor. O conde de Ficalho desempenhava, no Paço, funções; passava tempos largos nas suaslargas terras. Era agrónomo. Conhecia, como poucos, a corte;entendia, como poucos, o campo. Poderia ter escolhido Lisboa e o seu mundo para lhe estudar, dissecar, e talvez como eça lhe satírizar os costumes; preferiu Serpa, o Alentejo, as safras,as caçadas, as pescarias, o povo. E muito bem se entende. Só podia fazer, em termos modernos de realismo e de crítica,a crónica do paço ou do salão, faltando à amizade, à lealdade,às confidências e aos sigilos; do povo podia falar livremente eafectuosamente. Em 1837, os marqueses de Ficalho _ que então residiam em Serpa- vieram a Lisboa. E entre cuidados (que o Alentejo não oferecia) teve a marquesa um filho, Francisco Manuel deMello Breyner, depois conde de Ficalho-homem de aptidõestão amplas que, entre todos os que, em redor dos anos 70,lançaram a renascença› realista, positivista e estética, se pode dizer que foi de todos o mais renascente.
Ficalho penetrou, com dois meses, ao colo de sua mãe,na mansão de Serpa; os camponeses, tão antigos naquela paisagem como os fidalgos, vinham, com seus foros de rosas, saudar um menino, um herdeiro, de um dos mais nobres solares dePortugal. o conde habita a Casa do Castelo_assim chamada em memória da desaparecida alcáçova-até aos 14 anos; suamãe ensina-lhe o português, o francês, a geografia, a história,a aritmética; o latim, a lógica e a retórica, chegam-lhe todas asmanhãs pela voz bondosa do capelão do palácio, um erudito. Os Ficalhos, senhores de grande nobreza e de grandefortuna, viviam em suas terras a existência simples do lavradoralentejano. Em Lisboa, na corte e nos salões, a marquesa deFicalho era, como se diz hoje, «uma das senhoras mais bemvestidas›; em Serpa saía de capote e lenço por respeito pelas mulheres muito simples ou muito pobres que cruzava a caminho do mercado ou da igreja. O marquês enfiava a mesma jaleca e cobria-se do mesmo chapéu serrano de abegões e maiorais;seu filho, o escritor e cientista, sempre que vinha ao Castelo,punha trajo alentejano. Em Lisboa, na corte, não faltava que machasse.(e dissesse) o conde de Ficalho um pouco senhor de si;em Serpa era o mais chão dos homens, chegado ao povo como fidalgos de outro tempo, não sentindo nem marcando as distâncias, ditoso no regresso de uma batida com moços delavoura, a conversar com mateiros numa sombra verde de faias,ou a gracejar com lojistas sob um cunhal da vila...Era um soberbo varão. Alto, moreno, robusto, tinha as sobrancelhas grossas e sombrias do marquês seu pai; Ramalho, familiar do palácio dos Mellos de Serpa, à Rua dos Caetanos, fala nos seus olhos‹penerantes e enigmáticos. E omelhor retrato moral, intelectual e curricular do conde deFicalho--foi o mesmo Ramalho quem o traçou:«Soube ser cumulativamente homem de corte, homemdo campo, homem de estudo, naturalista, literato, artista,poeta, historiador, agrônomo, mordomo-mor no paço, estadista no Conselho do Estado, legislador da Câmara dosPares, professor na Escola Politécnica, embaixador na corte da Rússia, presidente da Academia, lavrador em Serpa,hábil condutor de cavalos e de cotillons, cavaleiro, caminheiro, corredor de lebres, caçador de perdizes, conversador igualmente exímio entre princesas reais e entre almocreves e carreiros; falando com igual facilidade a língua aristocraticamente sublimada das primeiras cortes do Ramalho Ortigão, «Figuras e Questões Literárias››_ Europa e a língua ríspída e crua dos eguariços, dos rabadões e dos malhadeiros das suas herdades. Ajustava-se-lhe tão airosamente à estatura a farda recamada de ouro das recepções do palácio como os ceifõesde couro e a jaqueta de pele de borrego nos montados da sua província, através dos chaparrais, das fossas, dos pastios e das searas alentejanas. Acariciava-o tão familiarmente o rumor das sedas, aocompasso dos violinos nas mesuras do mais subtil izadominuete de corte, como as alegres alvoradas dos melros e das cotovias no austero sussurro dos azinhais e dos olivedos de Serpa. Tanto sabia com autoridade palaciana empunhar o seu bastão de mordomo nas funções régias, como sabiamanejar no gabinete a sua pena de escritor, como sabiagovernar no campo o ferro de um arado na lavra de um alqueive, ou um pampilho de vaqueiro numa apartaçãode gado.» Este retrato, redigido para a ‹‹Tradição›>, o semanário que o conde dirigia em Serpa, e aí publicado quando da sua morte em 1903, é sólido e sincero; acima de tudo testemunha. O amigo de Eça de Queirós, o companheiro de Oliveira Martins, o admirador de Antero de Quental, chama a Ficalho, nesse escrito,«o homem mais brilhantemente completo da sociedade portuguesa do seu tempo; e ele, o saudável e o esteta, tendo ofervor da saude e a paixão da arte, descobre com feliz surpresa,no mordomo-mor do Paço, «um tanto de atleta, um tanto demenestrel, um tanto de paladíno›;” mas o que sobretudo estimava em Ficalho era «a mais pródiga liberdade de coração,a mais alta cultura de espírito, a mais fina rectidão de carácter. Era preciso dar um nome a tão rica soma de dotes altos. Ramalho escolheu - ateniense.«Pelo ateniense conjunto dessas prendas, diríamosterem sido escritas para ele aquelas palavras em que Plutarco resume o elogio de um dos seus varões ilustres:“Tendo atingido o esplendor da beleza na infância, namocidade, na idade viril, ele foi amável em todo o decurso da sua vída. Depois louva a «cultura enciclopédico» do conde «quefoi um positivista, rebelde todavia ao dogma da infalibilidade científica, como era rebelde ao absolutismo de todos os dogmas.O seu espírito lucidíssimo e completamente são tornara-se refractârio a todas as alucinações, incluindo a da certeza. Como pensador não tinha partido filosófico. Não era espíritualista, nem materialista, nem deísta, nem panteísta, nem ateu. Cogito ergosum-poderia ele tornar a dizer como Descartes ao concluira liquidação de todas as doutrinas da sua época. Como nãotinha seita, nem escola, também não teve correligionários forada sua especialidade concreta de naturalista›. "II _ O CONDE DE FICALHO, A CRÍTICAE AS ANTOLOGIA o conde de Ficalho foi, pois, uma grande figura: davída social, da vida científica, da vida cortesã, da vida literária. Eça,o nosso mais fino estilista, admirou o seu estilo. Ramalho, umdos mais ponderados críticos da época, elogiou as suas narrativas. Os livros que publicou foram bem recebidos. Em 1880,ano do centenário de Camões, um alvoroço erudito rodeia a«Flora dos Lusíadas, trabalho de estudioso e trabalho de artista. «Pêro da Covilhã, «Garcia da orta, são êxitos. O labor específico do botânico, recolhido na monografia e notratado, recebe louvores dos especialistas. Nos periódicos daépoca lêem-se recensões a «Uma Eleição Perdida». Pode dizerse que Ficalho-ficou. Talvez mais a «figura célebre»do que o prosador de numerosas e admiráveis páginas; talvezmais o contista de «A Caçada do Malhadeiro» do que o ficcionista de «Uma Eleição Perdida». Pode dizer-se que o conde de Ficalho ficou. Quando se discutem os melhores contos portugueses oelogio de «A Caçada do Malhadeiro›> é quase obrigatório. AsHistórias da Literatura Portuguesa, as melhores, não o esqueceram ou, como se diz agora, não o marginalizaram. No volume de António José Saraiva e Óscar Lopes, justa e fina, há umaapreciação:«O conde de Ficalho, Francisco Manuel de MeloBreyner (1837-1903), mais conhecido como botânico, historiador da botânica em Portugal, biógrafo de Garcia daOrta e Pêro da Covilhã, é também um notável ficcionista de ambiente alentejano, merecendo salientar-se a novela e os contos regionais reunidos em «Uma Eleição Perdida››,1888, devido, sobretudo, ao seu apurado impressionismolocal. ›› 1°Fídelino de Figueiredo, o erudito filólogo, concede--lhe duas páginas e meia da sua «História Literária dePortugal›. Sobre os contos, escreveu: «Uma Eleição Perdida,de 1888, ostenta quadros vigorosos, nas peças breves, principalmente» E encerra com este juízo, que pode ser contestado, mas deve ser transcrito: «Na mente de Ficalho há umajustaposição de talentos, mais hábeis que criadores, a qualdenuncia um brilho de diletantismo, anterior ao espírito de1° António José Saraiva e Óscar Lopes, «História da LiteraturaPortuguesa›. Fídelino de Figueiredo, «História Literária de Portuga. especialização científica e estranha à força superior da inspiração artística. Faz pensar no enciclopedismo dos médicos oradores e escritores do século XIX, à maneira de Sousa Martins e Ricardo Jorge, que nem sempre curavam, mas sempre deslumbravam. No conjunto da obra de Ficalho, a Botânica parece ter sido um obrigado postigo para evasões históricas e literárias. ›› ”«A História da Literatura Portuguesa, de João Ferreira,não refere o conde de Ficalho. E lá estão-ou lá jazem-um João Grave, que não se gravouno conto, e o comovido ecomovente, fácil, Trindade Coelho -- que não escreveu nenhuma«Caçada do Malhadeiro»!«A História da Literatura Portuguesa Ilustrada››, dirigidapor Albino Forjaz de Sampaio, também não menciona Ficalho. Figura em antologias; da mais conhecida, talvez da mais importante e consagradora, foi arredado, estranhamente.” Todavia o seu organizador, Guilherme de Castilho, faz escolhas lúcidas: Eça de Queirós, por exemplo, está representado pelo que é talvez o seu melhor conto- «José Matias. Mas descubro láPedro Ivo-e com «O Berço›! E tropeço lá em Álvaro doCarvalhal--e na «Honra Antiga»! E esbarro lá com Teixeira de Queirós-e com «O Enterro de um Cão››! Não encontro«A Caçada do Malhadeiro››Na colecção «Mosaico›, que ostenta em subtítulo «Pequena Antologia de Obras-Primas, presta-se justiça e rende-sehomenagem ao conde de Ficalho. «A Caçada do Malhadeiro››,«A Pesca do Sável› e «A Maluca d'A dos Corvos›› surgem aolado de: Domingos Monteiro _ com «A Ladra›; de José Régio_com «A História de Rosa Brava; de Branquinho da Fonseca- com «A Tragédia de D. Ramon; de Machado de Assis 'com «Missa do Galo››. o antologista, Manuel do Nascimento, escreve que « se devem ao conde de Ficalho muitos dos mais belos contos portugueses; se são admiráveisos seus escritos sobre o Alentejo em geral e particularmente «Os [melhores Contos Portugueses, pref. e notas de Guilherme de Castllho sobre Serpa, há que enaltecer também a sua obra de cientista. Ao falar do artista, verdadeiro plástico da língua que oi, nãopodemos esquecer o grande investigador. * Acrescentando:«Os contos extraídos de «Uma Eleição Perdida» () darvos-ãoa medida do valor literário do conde de Ficalho. › Concluindo:«Morreu Francisco Manuel de Mello Breyner em1903, poucos anos depois de ter publicado «Uma EleiçãoPerdida» e, se o ƒiccionista não conseguiu revelar-se total-mente, isso se *deu certamente porque os trabalhos científicos e de pesquisa lhe roubaram todo o tempo de quedeveria dispor para a criação literária.» 1”III- OS CONTOS do conde de Ficalho surgem em 1888, como título «Uma Eleição Perdida››, editados pela Livraria Férin,ao Chiado. Um deles, «A Caçada do Malhadeiro», é um dos melhores contos da literatura portuguesa: recolhido, como vimos,em antologias, é levado ao cinema. «Uma Eleição Perdida» nãofoi, porém, reeditada. Um único livro de ficção, embora apreciável, não chega para fixar um escritor numa literatura; tem-se visto muitas vezes. Ficalho, contista, é para muitos o autor de«A Caçada do Malhadeiro -_ como se não tivesse escrito bemnarradas, valiosas, outras histórias.«Uma Eleição Perdida» consta de seis contos, que naedição Férin ocupam 273 páginas. O mais extenso dá o títuloao livro. Alonga-se por 165 páginas e, num critério de extensão,deveria ser chamado novela. Os outros são verdadeiros shortstories, verdadeiros contos. A segunda narrativa, «A Caçada do Malhadeiro», satiaz se com páginas. Os três seguintes Mosaico, Pequena Antologia de Obras-Primas, direcção literária de Manuel do Nascimento. desdobram-se em espaço semelhante: «A Maluca d”A dosCorvos» começa na página 185; «A Pesca do Sável» na página205; «Os Cravos›, na página 223; «Mais Uma Vez» na página235. São todos antecedidos de uma folha despida, tendo aocimo o título.O conto de Ficalho é um conto realista, como exigia ogosto em 1888, catorze anos depois de Eça ter introduzido oRealismo em Portugal. A nova estética sulcava, impregnava o areuropeu; e tudo impelia o conde à nova estética: a sua formação positiva de cientista; o seu convívio com os escritores da geração de 70, todos realistas.O conde de Ficalho é um grande e poderoso narrador:tem um sentido do movimento do relato quase «cinematográfico›; tem um dramático sentido do crescendo dramático, que recusa porém o «teatral›. «A Caçada do Malhadeiro» éuma narrativa exemplar, de um exemplo que se não quermoral, como em Cervantes, mas puramente narrativo. O condefez de casos da vida _- como exigia a Escola Realista -pretextos de histórias. O seu conto oferece, como dado imediato, ser bem narrado e bem dramatizado. Em cada história há drama; por vezes cada história é um drama. O narrador,discreto, mantém-se por detrás da intriga, que governa com asua pena segura e forte. Todas as narrativas decorrem no Alentejo, e são contemporâneas-outro preceito do Realismo _com«A história contada n'A Caçada do Malhadeiro››. Tínhamos ido – o mestre Domingos ferreiro, o malhadeiro do Vale Fundo e eu – em busca de um porco, que o malhadeiro atalaiara na véspera. Tencionávamos fazer apenas uma mancha pequena, próximo da qual o porco fora visto, e voltar à tarde ao monte das Pedras Alvas, onde ficara o nosso rancho. O malhadeiro foi com os cães bater, enquanto o mestre Domingos e eu esperávamos nas portas. O porco não estava na mancha. Batemos segunda, onde também não estava; mas ali os cães pegaram com força no rasto, e em baixo no vale achámos-lhe as saídas frescas. Sempre na esperança de o encontrar, batemos terceira e quarta mancha, e fomos de cerro em cerro, e de vale em vale, até que, quando nos decidimos a voltar – sem ter visto um pêlo do porco – estávamos a duas léguas, e léguas de serra áspera das Pedras Alvas. Era em Dezembro, já ao cair da tarde. Começava a chover, e as nuvens grossas, correndo do lado do sul, anunciavam uma noite de água. – Nós com um tempo destes não deitamos às Pedras Alvas senão alta noite – disse o mestre Domingos. – Não deitamos é certo! – respondeu o malhadeiro. – Má raios partam o porco! – acrescentou, para se consolar. – Mas que há a fazer?– Podíamos ir à malhada da Crespa, que é daqui meia légua. O Tio João sempre há-de ter alguma coisa que se coma, e um lume prà gente se enxugar. – Pois vamos lá. As nuvens negras tinham-se fundido num tom cinzento. A chuva engrossava. Batida com força pelo vento, passava em linhas claras, apertadas, quase horizontais, sobre o verde-negro dos cerros. O malhadeiro abria caminho a corta-mato, e o mestre Domingos e eu seguíamos, abaixando a cabeça, fugindo às rajadas de chuva que nos açoitavam a cara. Em fila atrás dos nossos calcanhares vinham os cães, tristes, de orelha caída. O mato escorria. Nos vales, cheios de erva densa, a terra ensopada cedia fofa debaixo dos pés; e as pegadas, marcadas no musgo verde, enchiam-se logo da água que ressumava. À luz ténue da tarde algumas poças maiores brilhavam, com reflexos frios de prata polida. Duas galinholas saltaram-nos aos pés, sacudindo com a ponta da asa as gotas cintilantes, presas às folhas viscosas das estevas; mas as espingardas estavam carregadas de bala, bem acomodadas debaixo do braço, com as fecharias tapadas pelas abas dos jalecos, e nenhum de nós ia de humor para atirar a galinholas. – Má raios partam o porco! – dizia de vez em quando o malhadeiro. Era noite fechada, quando os perfis confusos de umas azinheiras grandes se desenharam diante de nós no clarão baço do céu. Ouvimos ladrar os cães – estávamos na Crespa. O Tio João veio à porta, conheceu a voz do outro malhadeiro e abriu logo. Estava só em casa com a nora e os netos pequenos; o filho andava trabalhando longe dali, e não recolhera. Improvisou-se rapidamente uma ceia pobre, que nos pareceu excelente. Duas braçadas de lenha seca de azinho estalavam na enorme chaminé, com uma chama clara, muito alegre. E quando acabámos de cear e nos chegámos para o lume, acendendo os cigarros, penetrou-nos uma grande sensação de bem-estar. Lá fora ouvia-se o cair monótono da chuva, e as lufadas do sul, assobiando na telha-vã da malhada. Naturalmente falou-se de caça – o ferreiro e os dois malhadeiros eram os três primeiros caçadores da serra. – Oh! Tio João, você é que fez uma caçaria melhor que todas essas? – disse o ferreiro depois de se contarem muitos casos de mortes de porcos e de veados. – Fiz... fiz... – disse o velho como quem meditava. – Você devia-nos contar esse caso esta noite. – Ó mestre Domingos, eu não gosto de falar nisso. – Ora, uma vez não são vezes... Eu sei do caso, mas nunca lho ouvi contar tão bem a preceito como ele foi, e os mais que aqui estão não o sabem. Pois conto – respondeu o malhadeiro, abaixando-se para acender o cigarro a uma brasa. Estava sentado defronte de mim, dentro da chaminé, ao lado da nora. A luz crua da labareda iluminava-lhe brutalmente a cara, enérgica, sulcada de rugas fundas, muito queimada. Entre os joelhos tinha o neto, uma criança de sete ou oito anos, com uma cabecita redonda, bem encabelada, e uns olhinhos pretos, vivos, em que a chama punha pontos brilhantes. De vez em quando a mão negra, muito dura, do velho passava sobre a cabeça do pequeno, com um toque suave, de uma doçura infinita. Diante do lume, o ferreiro e o Joaquim do Vale Fundo, estendiam para o brasido os sapatos grossos e as polainas, que ainda fumavam. A chama, levantando e abaixando, projectava-lhes as sombras, desmesuradamente grandes, na parede caiada do fundo, fazendo-as dançar de um modo fantástico. – Isto por aqui no tempo dos franceses esteve mau... muito mau! – começou o malhadeiro. – Passaram aí duas vezes. Quando passaram juntos, em tropa, bem foi; mas depois quando iam na retirada, sem respeito lá aos seus comandantes, nem a ninguém, queimavam e roubavam tudo. Os montes, nos barros, estavam todos desertos; e mesmo cá na serra, nas malhadas mais perto das estradas, não ficou viva alma. Todos fugiam, levando alguma coisa melhorzita que tinham. Meu pai quis ficar aqui. – Pra onde há-de a gente ir? – dizia ele. – E depois isto é cá desviado, não vêm cá. Eu, ao tempo, era rapazote, ia nos meus dezassete. Estava aqui com meu pai e as minhas duas irmãs; a Inês, a mais nova, que ainda vive, era mais velha do que eu um ano; e a Mariana, Deus lhe perdoe, teria então os seus vinte ou vinte e um. Passou tempo, sem os franceses aparecerem. A gente sabia que passavam tropas, aí pelas estradas, direitas a Espanha; mas cá na serra já estava descuidada. Quando uma manhã, que eu andava lavrando com a parelha ali no farrejal, e meu pai estava falquejando umas alvecas aqui na empena, a Inês que tinha ido à fonte... à fontinha lá abaixo na umbria, sabes Joaquim?... a Inês veio fugindo ladeira acima, e chegou aí esfalfada, dizendo: – Aí vêm... aí vêm! E vinham. Aquilo sorte é que se tinham desviado da estrada, perderam-se e vieram a corta-mato, direitos à casa, que viam aqui na altura. Eram oito. Vinham muito rotos, com os sapatos em frangalhos, atados com trapos. Um – estou-o vendo – um alto, magro, com o nariz grande e o bigode caído aos cantos da boca, trazia um lenço branco, sujo, com grandes manchas de sangue, atado à roda da cabeça. Meu pai bradou-me, e quando eu vim correndo, disse-me baixo:– Esconde as espingardas. Fui àquele canto onde elas sempre têm estado, peguei-lhes, passei à porta de trás, e fui meté-las na palha da arramada. Quando voltei já os franceses estavam dentro de casa. Não se percebia nada do que diziam, senão – vino... vino... – e faziam sinal que queriam comer. O pai disse às moças que lhes dessem o que havia; mas eles não esperavam, abriam as arcas e traziam o que achavam pra cima dessa mesa. Meu pai tinha-se sentado naquele banco... O velho indicava os lugares com o gesto, que o Joaquim e o mestre Domingos seguiam no movimento de atenção dos olhos; e assim contada, naquela casa, que não tinha mudado nos últimos sessenta anos, onde ainda se viam as espingardas encostadas ao mesmo canto, e o banco tosco ao lado da porta, a história adquiria uma intensidade de vida, uma actualidade singular. – Os franceses – prosseguiu o Tio João – comeram, beberam, estavam já alegres, rindo e gritando. Um deles, um loiro, que tinha um galão e parecia mandar alguma coisa nos outros, quando a minha Inês passou ao pé dele, deitou-lhe um braço à cintura, sentou-a à força nos joelhos e deu-lhe um beijo. Eu vi isto, e no mesmo instante vi meu pai de pé, e um machado de cortar azinho direito à cabeça do francês. O francês era leve, furtou-se; e quarto ou cinco deles agarraram-se a meu pai e depois de uma luta deitaram-no ao chão. Eu tinha levado uma coronhada pelos peitos, e estava encostado àquela arca, seguro por outros dois. O loiro ria-se, com um riso mau, mas dizia – quis-me a mim parecer – que nos não fizessem mal, que nos atassem. Estava aí uma corda grande de inquirir, com que eles ataram o pai de pés e mãos. A mim ataram-me com um baraço e com a minha cinta. Às moças... arrastaram-nas para a casa de dentro, gritando e chorando... À mesa ficaram dois franceses, bebendo. Eu ouvia minhas irmãs chorar lá dentro, chamando-nos, que lhe acudíssemos; e via o pai deitado no chão, com a camisa rasgada, e as mãos atadas atrás das costas. Na luta, quando caiu, partiu a cabeça na esquina do banco. Um fio delgado de sangue corria-lhe da testa até às suíças brancas, e, dos olhos muito fitos, vi correrem-lhe as lágrimas, que se misturavam com o sangue. Não posso dizer o tempo que isto durou; mas pareceu-me muito. Quando os franceses saíram, rindo e metendo nos bornais o pão e uns queijinhos que tinham sobejado, nem olharam para o pai; a mim pegaram-me, e, assim mesmo atado como estava, levaram-me à porta para lhes ensinar o caminho. Não sei o que me lembrou; mas em lugar de lhes mostrar a trocha que vai direita à estrada, mostrei-lhes a que desce para a ribeira. Essa trocha era a mais seguida das duas – eles não desconfiaram, deitaram as espingardas ao ombro, e desceram vale abaixo. A Inês não dava acordo de si; mas a Mariana, muito branca, muito enfiada, veio cá fora desatar o pai. Ele não falava, e, quando a Mariana me desatou, disse-me só:– As espingardas. Fui à arramada buscá-las, e quando vim já o pai tinha o polvorinho a tiracolo; apontou para o outro polvorinho que eu enfiei, e, tirando da arca o saco das balas, esteve-as dividindo, deu-me um punhado delas e meteu as outras na algibeira. Saímos sem ele dizer uma palavra à Mariana. Fez-lhe sinal que chamasse e fechasse os cães. Só deixou ir uma podenga velha vermelha; mas a podenga era – salvo seja – como uma criatura; quando estava numa porta nem latia, nem mexia um cabelo. A ponta dos farrejais abaixou-se; desafivelou a coleira do chocalho da cadela e deitou-a fora. Nós íamos devagar. Entendi eu que meu pai os queria deixar meter bem para os vales mais ásperos. Lá abaixo, aos matões do barranco do Alendroal é que os apanhámos. Vimo-los de longe numa volta da trocha. Meu pai não falava, fez-me sinal que fosse à meia encosta da umbria, que ele ia pela soalheira; e quando nos apartámos, numa voz ainda trémula, disse-me só estas palavras:– Não atires, sem eu atirar. Eu meti à encosta, de gatas, por baixo das estevas. Era uma criança ainda, mas não me lembrei de ter medo. Fui... fui, até que cheguei bem a tiro. Já nesse tempo atirava bem. Desde pequeno que andava com meu pai, e você ainda se lembra como ele atirava, mestre Domingos?– Era a primeira espingarda da serra, a chumbo e a bala!– afirmou o ferreiro. – E era! – continuou o velho. – Eu não o via; mas sabia que ele ia na outra encosta. Os franceses iam em baixo no vale, todos numa linha porque a trocha era estreita. Numa volta do vale, ouvi um tiro; e o francês, o loiro, que ia adiante, abriu os braços e caiu de bruços. Os outros pararam; eu apontei bem um, dei ao dedo, e ele caiu, redondo. Ao segundo, tiro viraram-se para o meu lado; então o pai – para me livrar – apareceu-lhes no mato. Atiraram-lhe todos, e eu vi as estevas cortadas pelas balas em volta dele; mas não lhe deram. Os homens ainda quiseram avançar pela encosta direito a ele, mas era um bastio de mato muito forte, não puderam romper, e, deixando os dois mortos, abalaram a correr pelo vale. O pai chamou-me e fomos juntos sempre pelo fio da altura, a ver o caminho que tomavam. Acho que se arrecearam de ir pelo vale, que era cada vez mais estreito, e meteram a uns matos ralos, de umas queimadas que se tinham feito nesse ano, direito à porta-baixa do Sovereiral. Quando os topámos foi já no barranco do Algeriz, ali ò açude do Moinho Velho. Estávamos metidos nos medronhais altos, e eles vieram sair no claro do areal do barranco – mesmo onde tu mataste-la porca grande a semana passada, Joaquim. Era quase à queima-roupa; caíram dois. Os homens eram valentes. Os quatro que restavam ficavam direitos, encostados uns aos outros. Atiraram para o mato, na direcção do sítio em que tinham visto o fumo, e uma bala cortou um ramo por cima da minha cabeça. Nós separámo-nos, e mesmo de rastos por baixo do mato, fomos carregando. Quando atirámos, eu precipitei-me e errei; mas o pai não errou... nem errava! Os três perderam coragem e fugiram para o mato. Era já escuro, perdêmo-los. Fomos para um cabeço e ficámos ali toda a noite. Eu estava cansado, era uma criança, pra ali me deitei. Mas o pai nunca dormiu; e quando eu de noite acordava com o frio e com a fome, via-o sentado numa pedra, direito, encostado à espingarda. Logo ao romper da manhã abalámos. Os três franceses tinham tido toda a noite para fugir; mas aqui na serra quem não é prático, jamais de noite, não avança caminho. Pode um homem andar uma noite toda, e de manhã achar-se no mesmo sítio. Ainda assim deram-nos trabalho; atalaiámos pelos cerros; rastejámos os vales e as passagens dos barrancos, como se a gente andasse à busca de um javardo ou de um veado; até a cadela – Deus me perdoe – já lhes pegava no rasto. Seria meio-dia quando os vimos lá muito em baixo, nos areais da ribeira. Tinham ido à água. Dali a duas horas estavam mortos todos três. Quando voltámos para a malhada, já os grifos andavam no ar às voltas, às voltas, por cima do vale, onde ficaram os dois primeiros. Meu pai ao entrar em casa não disse nada; mas agarrou as filhas e teve-as muito tempo abraçadas, e nunca até à hora da sua morte o ouvi falar no que tinha sucedido. O lume ia-se apagando, sem que – presos à narração – nos lembrássemos de o atiçar; e o vasto brasido, onde ainda corriam umas chamas incertas, azuladas, iluminavam vagamente a figura austera do velho, que amparava com muito cuidado sobre os joelhos o pequenito adormecido.
Transcrito por Manuel Amaral Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume III, págs. 449-450.
Edição em papel © 1904-1915 João Romano Torres - Editor
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